EUA: A Maré Começa a Virar, de John Peterson

24/11/2011 14:34
22/11/2011

EUA: A Maré Começa a Virar

John Peterson
Outros artigos deste autor

 

 
 
O texto ora publicado mostra que um processo embrionário de reordenamento na luta de classes começa a ocorrer no EUA, as massas trabalhadoras começam a se movimentar na direção de sua auto-organização despertando para as ideias socialistas
 

Durante 30 anos, os trabalhadores estadunidenses foram assaltados. Por décadas, houve pouca resistência e ainda menos êxitos. Entre 1973 e 2007, a sindicalização do setor privado decresceu mais de 75% e a desigualdade aumentou em 40%. O nível das greves caiu aos seus níveis mais baixos. Politicamente, as coisas viraram ainda mais à direita enquanto Democratas e Republicanos se revezavam entre si para realizar os desejos dos capitalistas.

Os líderes do trabalho nada ofereciam além da fracassada política de “parceria com os patrões” nas fábricas e nas urnas. A despeito das heroicas tradições do passado, tudo isto levou muitos a acreditar que os estadunidenses estavam felizes ou que de alguma forma tinham se “aburguesado”. Luta de classes e revolução podiam acontecer na Venezuela ou no Egito, mas não nos EUA.

Mas a “toupeira da história” vinha escavando o subsolo durante todo este tempo. Uma redução de salário aqui, uma execução de hipoteca ali; um aumento dos custos de saúde aqui, uma fábrica fechada e transferida ali. Pouco a pouco, as bases econômicas do Sonho Americano foram sendo gradualmente corroídas e, com elas, também as ilusões de que o capitalismo é “o melhor dos mundos possíveis”.

Sempre tivemos confiança total na classe trabalhadora dos EUA. Entendíamos que os trabalhadores estavam aprendendo de sua própria experiência e que inevitavelmente entrariam no caminho da luta em determinado momento. Afinal, um pêndulo necessita oscilar à direita, como até agora, antes de oscilar de volta à esquerda. E quanto mais longe ele vai numa direção, mais dramaticamente ele oscilará de volta quando a maré virar. Ainda estamos no início do processo, e, sem necessidade de exagerar, o enorme potencial para o futuro é evidente.

Basta ver o movimento Ocupa que se espalhou a virtualmente todas as cidades do país. Ele persevera há semanas e não dá nenhum sinal de arrefecer tão cedo. Os objetivos dos manifestantes podem ser variados e carentes de coerência política, mas estão unidos numa coisa: estão insatisfeitos com o status quo e desejosos de fazer outra coisa além de se lamentarem sobre isto. Este fenômeno não tem precedente e está impregnado de implicações revolucionárias para o futuro.

Embora muitos dos manifestantes estejam nas ruas exatamente porque seu voto por Obama não levou a nenhuma mudança real, os Democratas estão trabalhando duro para cooptar o movimento. Contudo, isto não vai ser tão simples. Que posição o movimento adotará nas eleições de 2012 não está ainda claro, mas ele acrescenta uma nova variável a uma já complexa equação. A outra tática para obstruir o movimento, a repressão policial, apenas tem estimulado o movimento para frente. Em Oakland, CA, a violência policial levou à convocação de uma greve geral na cidade e a protestos massivos que pararam o gigantesco porto da cidade.

O ano pré-eleitoral também dá um vislumbre da mudança de ânimo. No “atrasado” Mississipi, os eleitores rejeitaram um ataque direto aos direitos da mulher de optar por e usar o controle da natalidade. No “racista” Arizona, o autor da SB1070, a draconiana lei anti-imigração, foi expulso do seu escritório pelos eleitores. E no “apático” Ohio, milhões de trabalhadores participaram das pesquisas de sondagem para rejeitar a depravada legislação contra os sindicatos do governador. Todos estes foram o resultado da organização popular de campanhas sobre estes temas. Sem dúvida, os Democratas e os Republicanos permanecem no poder; dada a ausência de qualquer alternativa real, é o que se pode esperar. Mas o ânimo por uma política de classe independente e por um partido do trabalho está aumentando.

A animosidade contra os ricos também está aumentando. Enquanto sofremos o desemprego e os cortes, os lucros de Wall Street levantaram voo, alcançando impressionantes 720% entre 2007 e 2009. Os bônus pagos são mais de trezentas vezes maiores que a média dos salários dos trabalhadores; hoje são 40 vezes mais elevados do que há três décadas. Uma sondagem de Pew Research recentemente descobriu que as famílias que têm por cabeça pessoas com idade de 35 anos e mais jovens ganharam em média apenas $3,662 em 2009, 47 vezes menos do que a média líquida recebida por famílias encabeçadas por pessoas de 65 anos de idade ou mais. E com o desemprego e a dívida desenfreados, não há nenhuma luz no fim do túnel para esta “geração perdida”.

Não é de se estranhar que haja uma reação crescente a esta situação. Uma sondagem recente da ABC/Washington Post revelou que 75% dos estadunidenses apoiam o aumento de impostos sobre os milionários para reduzir o déficit federal. Há oposição ampla a cortes no Medicare, Medicaid, Seguridade Social e outros programas sociais. E, pela primeira vez desde os anos 1930, a maioria dos estadunidenses está a favor da redistribuição da renda e da riqueza. De acordo com uma recente sondagem de The New York Times/CBS News, uma enorme maioria de 66% dos estadunidenses disse que a riqueza da nação deveria ser distribuída de forma mais justa. Quem foi que disse que as ideias socialistas não estão “vivas”?

Republicanos e Democratas se engalfinham entre si sobre quem tem o melhor plano para reviver a economia e criar empregos. Mas, se a criação de empregos fosse um problema tão fácil, por que eles ainda não o resolveram? A verdade é que eles não têm a menor ideia de como criar empregos enquanto quietamente asseguram os superlucros de suas principais corporações empresariais. Não se pode enquadrar o círculo. Os capitalistas fazem negócios para ter lucros e não para criar empregos. Então, a única solução que eles encontram é a de espremer os trabalhadores ainda mais. Mas isto tem os seus limites.

A maré está virando. Com trilhões de dólares em cortes desabando sobre seus ombros, não haverá alternativa para os trabalhadores além de se organizarem e lutarem contra tudo isto nas ruas, nos locais de trabalho e nas urnas com a criação de um partido dos trabalhadores baseado nos sindicatos. Armado com um programa socialista, um partido desta natureza poderia rapidamente reverter esta situação e transformar a política e a sociedade dos EUA para sempre.

Traduzido por Fabiano Adalberto


Fonte: https://www.marxismo.org.br/index.php?pg=artigos_detalhar&artigo=888