Democracia parlamentar: um triunfo da engenharia vitoriana, por William Bowles

05/05/2010 16:44

Democracia parlamentar, um triunfo da engenharia vitoriana

por William Bowles

 

 

Para entender o que está a acontecer na Grã-Bretanha de hoje temos de remontar ao século XIX e à ascensão do capitalismo industrial/mercantil, pois foi durante aquele período que os vitorianos entraram plenamente na fabricação de mitos, reescrevendo quase completamente a nossa história. Na verdade, foi um triunfo da engenharia vitoriana.

O vasto movimento de êxodo não só das zonas rurais para as cidades como do trabalho artesanal para o trabalho assalariado fracturou a nossa memória colectiva tão completamente que inventar uma nova versão da "nossa" história, uma versão mais capitalista, foi fácil. Acrescente-se a isto o facto de que mesmo as massas trabalhadoras oprimidas ainda beneficiavam da riqueza do Império escravocrata/colonial da Inglaterra, persuadindo o povo de que o "Domínio britânico dos mares" não era uma tarefa tão difícil de cumprir. E apenas precisamos olhar para os EUA para ver um exemplo actual de como o Império corrompe totalmente.

Mas no fim do século XIX o poder em ascensão do trabalho organizado (branco, masculino) acabou por encontrar a sua expressão política no Partido Trabalhista com a (relutante) aceitação pela classe dominante de que a classe trabalhadora queria protagonismo, ou mesmo todo o bolo! Algum coisa tinha de ser feita para impedir um possível desastre: a Revolução.

Aqui entra a "democracia" parlamentar e a rota escolhida pelo trabalho organizado como a verdadeira estrada para o socialismo. E é aqui que o papel do mito fabricado foi e continua a ser crucial para o exercício da "democracia", um ritual executado a cada cinco anos quando a elite política trata de ganhar os nossos votos.

Contudo, uma vez que o Partido Trabalhista em 1997 abandonou qualquer pretensão de ser o partido do trabalho, o truque cruel ensaiado sobre nós durante a última centena de anos agora torna-se claro para todos verem. E no momento certo, a "crise de legitimidade" desce sobre a elite dominante.

Os políticos convencionais e seus cúmplices nos media querem fazer acreditar que a próxima eleição de 6 de Maio é a mais importante desde, suponho, as de 1945. O problema é que eles estão certos, mas pelas razões erradas.

A primeira é óbvia: a elite política está desesperada para restaurar alguma espécie de legitimidade, e além disso a crença no "sistema", o que equivale a dizer, preservar o seu próprio poder, seriamente desafiado a seguir a uma série de escândalos (em andamento) e exemplos colossais de total incompetência. Exemplos: a tentativa desastrosa de digitalizar o Serviço Nacional de Saúde, um escândalo de 12 mil milhões que todos nós pagamos e que não funciona e/ou ninguém ousará utilizá-lo. Não é exagero afirmar que virtualmente tudo em que o governo trabalhista se intrometeu foi um desastre total. Os únicos que se beneficiam são os cúmplices de negócios do Partido Trabalhista com as suas "parcerias público-privadas" e outras os quais ficaram com milhares de milhões do dinheiro público, o nosso dinheiro!

Portanto um alto comparecimento, posso acrescentar que conduzido por um violento ataque sem precedentes dos media liderado pela velha e boa BBC, reflectiria uma espécie de "confiança" restaurada no sistema, bem exemplificada pela ascensão de Nick Clegg dos Liberais Democratas, cujo único motivo de fama é não ser Cameron ou Brown.

O grau em que o estado está suspenso por um fio neste processo das Cuecas do Imperador é evidente na ascensão dos Liberais Democratas, vazios como são, quase a assemelharem-se ao "velho" Partido Trabalhista mas sem os bonés respectivos. Mas duvido seriamente que a propaganda furiosa venha a ter o efeito desejado, apesar de Nick Clegg.

É de facto um sinal de que o eleitorado se agarra a palhas, a qualquer coisa para livrar-se de uma classe política obviamente corrupta e esclerótica. O problema é que os Lib-Dems são simplesmente tão parte do "clube" como o resto deles. Tornar-se um deputado é como aderir aos maçons, sem o aperto de mão secreto.

Em qualquer caso, o sistema eleitoral é tão falsificado que mesmo se os Lib-Dems ganhassem a percentagem mais alta dos votos depositados, acabará por ser uma vitória Trabalhista ou Conservadora devido ao sistema first past the post que repousa no facto de ser baseado sobre densidades populacionais e não no total dos votos efectuados.

O resultado é que não importa quem "vença", portanto todo o ar quente acerca dos perigos de um "Parlamento em suspenso", um parlamento sem maioria clara, é mais uma tentativa de intimidar o eleitorado a votar (o comparecimento esteve nos 30 por cento nas eleições recentes, ou como disse Gordon Brown em 2000 "um baixo comparecimento é um sinal de um eleitorado satisfeito").

O sistema parlamentar, astuciosamente construído por aqueles tortuosos imperialistas vitorianos, construído sobre os mitos então recém construídos acerca da história da Inglaterra, já não é, como eles dizem, adequado à sua finalidade. Assim, sem nenhuma diferença apreciável entre os três partidos políticos que o controlam, os quais construíram entre si um partido único de facto, um estado de segurança "democrático", o eleitorado é deixado a balouçar ao vento.

Entra em cena o British National Party (BNP), um mal disfarçado partido neo-nazi — que em outras circunstâncias sequer seria mencionado nos media de referência — que foi legitimado de um modo indirecto e apresentado à "Inglaterra média" como a alternativa – a menos que sigamos a linha, que retornemos ao aprisco e restauremos o status quo. As "opções" são a direita ou a extrema direita.

Então onde está a esquerda?

O estado está confrontado com uma crise dupla, económica e política, um terreno certamente fértil para a esquerda fazer uma reaparição? Mas isto não está a acontecer. Por que?

O problema em parte é que a ideia de socialismo foi desacreditada tanto nos factos como na ficção. Assim, como colocar o socialismo outra vez na agenda? Será possivelmente a única oportunidade que temos de nos salvarmos.

Não é que, enterrado sob o peso embrutecedor da "cultura" corporativa, o desejo da mudança radical já não exista (referi-me a isso alhures). Mas como com tudo o mais o nosso desejo de mudança é sequestrado e corporatizado pela cultura dominante, canalizado para objectivos inofensivos ou ainda mais consumo, "Verde" ou outro qualquer.

O que estou quase a propor está sem dúvida à beira da heresia para a esquerda tradicional mas é razoavelmente óbvio que a "nova" classe trabalhadora é o que costumávamos chamar a classe média (com elementos chave da classe trabalhadora tradicional incluídos, especialmente os sectores do serviço publico e dos transportes. O estado é afinal de contas o maior empregador único e os sindicatos do serviço público também são os maiores sindicatos e estão todos juntos no apoio ao Partido Trabalhista.

Actualmente o descontentamento da "classe média" está a ser canalizado ou para expressões corporativas ou é fragmentado em preocupações orientadas para "uma única questão". O que mais se aproximou de uma expressão política foi o Partido Verde, mas ele não tem uma alternativa real a oferecer, apenas paliativos à ordem actual, nenhum dos quais a elite dirigente em qualquer caso toleraria se por algum milagre ganhassem um mínimo de representação, o que de todas as formas é impossível sob o actual sistema eleitoral.

A esquerda tradicional nada quer fazer com esta nova classe trabalhadora, encarando-a não como aliada e sim como inimiga. Mas é esta "classe média" que possui as chaves do castelo, sem ela o capitalismo simplesmente não pode funcionar. Eles agora ocupam uma posição comparável na ordem económica àquela que os trabalhadores fabris ocuparam outrora.

A falácia nesta altura deveria transparecer. A "reforma" do capitalismo simplesmente não está em marcha. Ao invés, realmente andamos para trás em termos de envolvimento político e de capacidade para mudar o sistema. Temos agora uma classe de políticos profissionais distinta, inteiramente divorciada da sociedade civil que representa abertamente os interesses do grande capital, pouco importando o partido político, além de preservar o seu próprio privilégio.

E não é apenas a corrupção endémica que revela o verdadeiro estado de coisas, afinal de contas ela é o produto final de um sistema concebido e construído pela classe política que o utiliza, de modo que sem serem responsabilizados estes palhaços são capazes de fazer tudo o que lhes agrade quer sejam da alegada esquerda ou da direita.

Vamos enfrentar isto, a mudança não vai vir através do sistema parlamentar existente, ele é um motor deteriorado, construído para uma outra era e, como a eleição se aproxima, vemos o Partido Trabalhista e o Liberal-Democrata a conversarem acerca de "mudança do sistema eleitoral", desesperados para chegar a um eleitorado que os desertou e fez isto exactamente por cima da barreira política entre os partidos.

Suspender ou não suspender?

Iniciei este ensaio asseverando que sim, que é a mais importante eleição em 65 anos – mas não porque importe qual do partido "vença" e sim porque o resultado determinará se a "democracia" parlamentar pode sobreviver ou não.

O que os sabichões chamam um "Parlamento suspenso" na realidade revela o relacionamento real entre os partidos políticos exposto à visão de todos, um relacionamento que sem dúvida terminará em alguma espécie de coligação e, a julgar pelas informações mais recentes, uma coligação Liberal-Democrata/Trabalhista. Seja qual for o resultado teremos um eleitorado alienado dos três principais partidos e não importa o governo que venha a emergir desta farsa.

"Alan Johnson, o secretário do Interior, revelou ontem fracturas na Unidade Trabalhista ao apelar por uma vasta reforma eleitoral e disse aos colegas para não ficarem "assustados" por partilhar poder com os Liberal Democratas.
(...)
"Os seus comentários foram encarados na noite passada como um sinal de que ministros começam a contemplar a tentativa de formar uma coligação governamental, um movimento que provavelmente exigiria o afastamento de Gordon Brown" — The Independent, 26/Abril/ 2010.

Assim, haverá quaisquer alternativas? Como destaquei alhures, existe o desejo por uma sociedade mais modesta e, acima de tudo, inclusiva, mesmo se actualmente pequeno (mas crescente) e em grande medida confinado à secção da classe trabalhadora (média) e quase ignorado pela esquerda tradicional, a qual ainda põe suas esperanças sobre uma classe trabalhadora que efectivamente já não existe.

Com excepção dos muito mal chamados Liberal-Democratas, esta secção chave da classe trabalhadora tem apenas o Partido Verde para articular suas exigências, um partido destituído de uma alternativa coerente para o capitalismo consumidor.

Portanto, seria mais exacto dizer que não é a eleição em si que é importante mas o que acontecer após a eleição. Inevitavelmente, seja quem for que vença recorrerá aos métodos tradicionais, ou seja, fazer o povo trabalhador pagar o preço da crise do capital. Como responderemos na esquerda é o desafio real.

O original encontra-se em http://en.fondsk.ru/article.php?id=2982

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

03/Mai/10