Paulo Arantes: A revolução não será tuitada

Tarifa zero e mobilização popular

 

Por Paulo Arantes.*

 

Vou me propor a responder a duas perguntas a respeito do que está acontecendo no país nessas últimas duas semanas. Como disse alguém do mainstream – e portanto suspeito – trata-se da vitória popular mais rápida e expressiva que se viu no país. Como se explica, então, como em uma semana um milhão de pessoas foi às ruas? Esta é a primeira questão. E resposta usual é: “foram as redes sociais que amplificaram um protesto minúsculo, sem elas não seria possível”. Mesmo um ideólogo da teoria da sociedade em rede como Manuel Casstells admite que um manifesto em rede social não leva ninguém à rua. Para ele, seria necessário, antes, que ele encontre um ambiente de insatisfação pública e mobilize imagens e palavras que correspondem a isso. Esta resposta, no entanto, não deixa de ser insatisfatória pois, dê início, a insatisfação pública é uma obviedade, não há imagens nem palavras que correspondem a ela. Voltaremos a isso adiante.

A segunda questão diz respeito ao mote dessa enorme mobilização, uma metáfora extraída do hino nacional, “o gigante adormecido em berço esplêndido…”. Trata-se do conhecido lema do grande despertar, que reaparece ciclicamente na história. Pois bem, se “o gigante acordou”, cabe nos perguntar com o que sonhava ele nos vinte anos em que esteve mergulhado em um sono profundo?

A revolução não será tuitada

Para responder à primeira questão, retomo o artigo Small change: why the revolution will not be tweeted [A revolução não será tuitada], escrito por Malcom Gladwell, em 2010, dois meses antes da primavera árabe, e muito antes dos indignados espanhóis e assemelhados. Nele, o jornalista conta uma história que recapitula o maior movimento de massas norte americano do século XX: o movimento por Direitos Civis, iniciado pelos negros do sul do país.

Em fevereiro de 1960, numa cidade do interior da Carolina do Norte, quatro estudantes negros resolveram ir a uma lanchonete de uma loja de departamento e se sentar em um local reservado aos brancos – o contexto, claro, é de uma sociedade extremamente  segregacionista, para citar apenas uma de suas patologias. Sem serem atendidos, ficam até o fechamento da lanchonete, neste primeiro dia, e voltam logo cedo no dia seguinte. À medida em que passavam os dias aumentava o número de pessoas, negras e brancas, em torno desse espetáculo cujo desfecho ainda estava indefinido. Por um lado, aumentava a violência e as ameaças de linchamento, por outro, aumentava também o número de comitês e caravanas de negros e apoiadores que chegavam de outras cidades do país. Resultado: em dez dias, foram mobilizadas 30.000 pessoas em uma cidade de 50.000 habitantes. Isto, lembra o jornalista, em uma sociedade em que não havia Facebook, Twitter, emails, nem nada dessa parafernália que supostamente mudará o mundo. Simplesmente a notícia correu!

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Analisando o conjunto de casos que compuseram essa febre que contagiou todo o sul dos Estados Unidos, abrangendo diversas estratégias de intervenção política, o jornalista conclui que só o que ele chama de vínculos fortes entre pessoas seria capaz de impulsionar movimentos ativistas de alto risco. E desafiar as leis e costumes segregacionistas do sul dos Estados Unidos envolve altíssimo risco. Muito pior do que cassetete de polícia, a ameaça é de linchamento, e por parte de uma direita organizada e extremamente violenta. A disposição pessoal necessária nesse tipo de ativismo só seria mobilizada com vínculos reais, cara a cara. No caso do movimento negro nos EUA, sustentado pela amizade dos quatro jovens de Greensboro, e de fundo por uma grande coalizão comunitária, organizada principalmente em torno de igrejas e que articulava um projeto estratégico. Ou seja, vínculos que não são, fundamentalmente, aqueles em jogo nas redes sociais.

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Outro exemplo ilustrativo, dadas as ressalvas históricas, é o das Brigadas Vermelhas na Itália nos anos 70. O levantamento feito neste caso indica que 70% dos recrutados tinha ao menos um grande amigo já filiado à organização. Do mesmo modo, podemos nos perguntar como ruiu em tão pouco tempo a Alemanha Oriental – e em um contexto em que 87% da população sequer tinha telefone! A mobilização organizava-se em torno de encontros semanais em frente a uma igreja em Leipzig e a lógica era a mesma: diziam, “eu vou porque sei que há um ‘amigo crítico’ meu ali” (amigo crítico era o nome dado a um conhecido que era crítico ao regime). Assim, o que quero dizer é que encontramos, invariavelmente, no ativismo de alto risco um forte traço de camaradagem – e camarada aparece aqui como transposição política da figura do amigo.

Dois limiares

Sobre as Jornadas de Junho, pode-se afirmar que tivemos dois limiares transpostos. O primeiro sendo esta disposição política que parece ter sido varrida da memória política brasileira há 20 anos: amigos cimentados numa causa. É possível conceber, no âmago dessas manifestações, a multiplicação de coletivos em que esse vínculo forte para correr riscos reais tenham sido efetivamente mobilizados. Os riscos sendo, a hostilidade da opinião pública e a disposição de uma sociedade ao linchamento e ao apoio à repressão, como aconteceu no Pinheirinho. Sem querer fazer apologia de um único movimento, pode-se afirmar que o próprio MPL, como organização de não mais que 60 amigos que recusa para si o rótulo histórico perempto de “vanguardismo”.

O segundo limiar transposto, diz respeito à ideia de manifestação: desmontou-se, praticamente, o mito pós-ditadura segundo o qual vivemos em um estado democrático de direito. O dito estado democrático de direito, que traduz-se no Brasil como “estado oligárquico de direito”, vale apenas para cima, pois “para baixo” tem se apenas o direito penal e social. Neste quadro, a política é confinada ao que chamo de “chiqueirinho” do ordenamento jurídico: tolera-se o direito de livre manifestação, desde que dentro dos limites banalizadas e rotinizados do local e hora marcados. Isto aconteceu porque os doutrinários da moral e cívica foram obrigados a aceitar a legitimidade das manifestações – entre outros motivos, até para não perder audiência!

Um exemplo clássico disto no Brasil contemporâneo é o MST. É somente essa característica de camaradagem que explica porque ele ainda resiste há 25 anos. O cenário que o MST enfrenta quando reivindica suas pautas é extremamente violento. Se há alto risco em alguma manifestação, é a deles. Não é possível mobilizar frente a jagunços, delegados, ameaça constante de despejo – em especial no caso do MTST – simplesmente com um evento via Facebook – são companheiros de longa data que estão juntos desde os acampamentos na beira de estradas.

O sono do gigante

Quanto à segunda questão, seguramente alguns psicanalistas – sem sequer fazer uma sessão de análise com algum dos milhares de manifestantes – irão logo concluir que país voltou a sonhar. Minha sugestão aqui, para todos esses coletivos mobilizados pesquisarem: com o que sonhava o povo brasileiro nos vinte anos em que esteve mergulhado em um sono profundo? O que passou pela sua mente e espírito, o que estava represado e não se sabia, ou que de repente veio à tona?

Um ponto de partida para essa reflexão é a distinção entre o sonho noturno e o diurno. No noturno, pensamos para trás – no inconsciente não existe tempo, ele é sempre contemporâneo: não existe passado nem presente. É no sonho diurno que pensamos para frente. Esse sonhar acordado é chamado na linguagem coloquial brasileira de devaneio. Trata-se do escape ou descolamento ocasional em relação à realidade sem o qual enlouqueceríamos.

É esta, aliás, a própria definição da experiência literária. Uma suspensão do garrote da realidade nos transporta a uma outra esfera em que, por meio das balizas da trama ficcional, a imaginação reorganiza a existência. Após este percurso voltamos revigorados à realidade e com nova imaginação – quem leu Balzac em seu tempo, por exemplo, certamente viu a Paris de 1830, antes da revolução de 1848, com outros olhos. O prazer da literatura é justamente essa nova visão. O devaneio, o sonho acordado, é, assim – que me perdoem os surrealistas – nada menos do que o fundamento de todas as utopias.

A questão central que fica diz respeito à analogia entre esse devaneio coletivo e o vínculo forte do ativismo. E onde mais esse vínculo ativista poderia encontrar os milhares de adormecidos, hipnotizados, durante os últimos vinte anos, por líderes carismáticos, em sua multiplicidade de devaneios, senão no transporte coletivo? Esse breve respiro, em meio do inferno da jornada de trabalho, que abrange desde o namoro e a amizade às contas, passando pela imaginação de mundos imaginários e fantásticos, se dá, tipicamente, no transporte coletivo. Esse devaneio, que acontece em meio às duas horas de ida e duas de volta (para ficar no caso de São Paulo) e prefiguram e exponencializam as miseráveis condições de trabalho, pode aparecer sob a forma de uma lembrança, um caso, uma piada, e que às vezes acontece em voz alta e pode até se transformar em conversa e, portanto, perfeitamente politizável. O que acontece nesse devaneio, que afinal deflagrou o que vimos, é produto de um sofrimento social profundamente ligado ao mundo do trabalho. Mais do que recuperar palavras de ordem ideológica, categorizando classes e posições políticas, é isto que precisamos decifrar.

Perguntas

Do ponto de vista da organização social, o que se pode aprender com o MPL, antes, depois e durante um ato?

Correr riscos altos através de um vínculo que não é de rede: é pessoal. O MPL tem, em relação ao partido, apenas o ônus: o ativismo de alto risco fortalece o vínculo entre as pessoas, os que recuam não renovam esse vínculo. Esses dias um jornalista escreveu no Estadão em tom de brincadeira – mas que mostra como as pessoas “pensam longe” – que para quebrar o movimento bastava colocar alguém do MPL na secretaria dos transportes. Claro, acalmaria os ânimos até as próximas eleições e daí o movimento já estaria extinto. Vejam, o vínculo de amizade é substituído pelo “gestor” e daí diminui a disposição de enfrentar riscos.

E sobre as propostas feitas pela presidenta, de pacto, de plebiscito, de reforma politica?

Ouço falar de pacto social (“entre os parceiros sociais”) desde a ditadura, a Guerra Fria: já vimos a meleca que deu. O pacto está ruíndo e a presidenta está propondo refazermos esse mesmo pacto: todos dentro do mesmo saco, o MST e o agronegócio, etc… Esse pacto ruiu: a população acordou polarizada. Temos que repolitizar a sociedade e essa repolitização tem que ser feita por muito trabalho de base. Nós temos que fazer outra coisa pois o atual sistema partidário ruiu: na Europa, no mundo árabe (que nunca teve), aqui.

Assim, sobre “pacto”, “reforma política”: não, desse mato não sai coelho. Temos uma outra sociedade plantada e não sabemos o que fazer. Bem, vou falar sobre o meu devaneio – de gabinete. Imaginem uma cidade de 50 mil habitantes, uma cidade pequena. 30 mil saem às ruas, entram na prefeitura e tiram de lá o prefeito a pontapés. Começam a pôr ordem na casa: poder popular. Ou seja, outra reformulação de organização da vida. Se em 15 dias você tem 5 comunas, dali mais alguns já são 100: aí começa a ter uma outra conversa política, poder popular urbano. Isso é um devaneio, obviamente.

Foi só a questão dos transportes que colocou todas essas pessoas nas ruas?

Olha, é o abc materialista: a centralidade do transporte afeta a circulação, ponto. Por exemplo, fechando-se as rodovias, aos poucos, vai-se chegando no coração do sistema… Mas isso é um devaneio, conhecemos a violência da policia militar que temos, seria muito arriscado. Vejam bem, vivemos a democracia da chacina: não é que as pessoas não saibam do que acontece: é consentido.

* Transcrição adaptada da intervenção de Paulo Arantes na aula pública convocada pelo Movimento Passe Livre em 27 de junho de 2013.

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Paulo Arantes é um dos colaboradores do livro de intervenção Cidades Rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, organizado pela Boitempo. Com textos de David Harvey, Slavoj Žižek, Mike Davis, Ruy Braga, Ermínia Maricato, Carlos Vainer, Lincoln Secco, Silvia Viana, João Alexandre Peschanski, Raquel Rolnik, Felipe Brito, Pedro Rocha de Oliveira, entre outros, o livro está previsto para julho.

Fonte: http://blogdaboitempo.com.br/2013/07/03/tarifa-zero-e-mobilizacao-popular/