Valério Arcary: O marxismo e a natureza humana (parte 2)

03/03/2013 11:57

O marxismo e a natureza humana (parte 2)

 

Valério Arcary

“Quem não cansa, alcança.” (Sabedoria popular portuguesa.)

A discussão da natureza humana reapareceu por intermédio de uma versão da biologia evolucionista. Esta posição admite que a natureza humana seria o produto da cultura. Mas ressalta que a cultura seria expressão, também, de uma natureza humana herdada. Ambas estariam condicionadas pela evolução. (RIDLEY, 1995). O argumento é circular.

A decodificação da seqüência do DNA tem alimentado até a esperança de identificar genes específicos, ou grupos associados de genes para explicar, tanto sobre a maior vulnerabilidade a doenças futuras, o que é animador, quanto sobre a probabilidade maior de tal ou qual comportamento humano, o que é mais do que preocupante. Especulou-se sobre o gene da violência, da homossexualidade, etc. Investigações estão sendo feitas nessa direção, ainda quando o tema seja muito polêmico no campo da própria biologia.

A maioria dos biólogos evolucionistas não propôs que a chave de explicação dos comportamentos humanos poderia ser encontrada nos genes. Somos humanos porque aprendemos e nos corrigimos. A provocação nos remete, contudo, à questão de saber se existiriam padrões constantes no comportamento social humano que teriam sido fixados ao longo da evolução.

Uma teoria evolucionista da história

Marx não ignorou, em seu tempo, que uma biologia evolucionista não só era compatível com uma teoria evolucionista da história, mas complementar. Acreditava que o homem, como ser social, tinha transformado a natureza à sua volta e, portanto, a si próprio, ou seja, sua própria morfologia. Dominou com as mãos a pedra, a madeira, o fogo, as peles e as fibras. Aprendeu a caçar em colaboração, e diversificou sua dieta. Aumentou seu cérebro, sua estatura, sua expectativa média de vida. A história das civilizações continuava e, inclusive, acelerava essa transformação da natureza e da humanidade.

Marx rejeitava vigorosamente uma interpretação da história baseada em padrões de comportamento social humano rígido. Argumentou que a humanidade reinventou permanentemente a si própria por meio do trabalho e da cultura. A natureza humana seria um processo ininterrupto de transformações adaptativas. Marx apresentou nos Manuscritos econômico-filosóficos a idéia de que uma essência humana imanente – um potencial de transformação – se expressou na ampliação das forças produtivas, ou seja, na invenção de novas necessidades.

Segundo Agnes Heller, uma das herdeiras de Lukács na chamada Escola de Budapeste: “Aceitamos a concepção do jovem Marx [...] tal como foi expressa pela análise de György Márkus. Segundo essa análise, as componentes da essência humana são, para Marx, o trabalho (a objetivação), a sociabilidade, a universalidade, a consciência e a liberdade. A essência humana, portanto, não é o que “esteve sempre presente” na humanidade [...], mas a realização gradual e contínua das possibilidades imanentes à humanidade.” (HELLER, 2004, p.4)

O desenvolvimento das forças produtivas seria o desenvolvimento da riqueza da natureza humana como finalidade de si mesma. Embora esse desenvolvimento tenha sido feito na história à custa do sacrifício da maioria – das classes exploradas e oprimidas – esse crescimento da humanidade sobre a natureza, assim como o domínio sobre as relações sociais, cria a possibilidade de que esses antagonismos sociais sejam superados.

A ampliação desta riqueza da natureza humana foi a substância do progresso. Fizemo-nos mais rápidos que o guepardo e mais fortes que o elefante. Voamos mais alto que o condor e descemos a profundidades maiores que os peixes. Marx admitiu, no entanto, que existiam limites. Reconheceu que os homens transformavam a natureza e todas as suas relações sociais – a língua, as ferramentas do trabalho, suas relações uns com os outros, etc. – em condições naturais e sociais que não podia escolher, que eram alheias à sua vontade; mas não aceitava a premissa que condicionava a mudança da sociedade à mudança prévia do homem. Lutando pela transformação e pelo domínio consciente de suas relações sociais, a humanidade estaria transformando-se a si mesma.

As desproporções dos dois processos que são a substância da história tornaram-se assustadores. O domínio técnico-científico alcançado está em contradição com o capitalismo. O gigantismo das forças produtivas atuais está aprisionado dentro de relações sociais capitalistas que ficaram estreitas demais. A potência contida nas forças produtivas é explosiva. Se não for libertado das amarras que as contêm ameaça destruir a civilização. O domínio da natureza sem uma solução socialista dos terríveis antagonismos que dividem os homens em classes colocou a natureza e a própria humanidade na beira do abismo.

A naturalização dos conflitos humanos nunca foi, politicamente falando, inocente. O que é natural não pode ser alterado, ou só se modifica em uma escala tão lenta que estaria além das dimensões possíveis da política. É a maldição do escorpião. Etnocentrismo para justificar o racismo, seguidismo da liderança para justificar os Estados militarizados, xenofobia para justificar as guerras territoriais, ambição para justificar a desigualdade social. A procura de um padrão inflexível de comportamento contraria a história, e diminui a conduta humana à pressão de forças que escapam à sua vontade. Foi a história que nos condicionou, favorecendo a plasticidade. Nos fizemos adaptativos, e não rígidos.

Natureza ou cultura é a forma que assume o dilema que, nesses termos, é falso. Somos os filhos de uma herança cultural que transformou nossa natureza. Fazemos a nossa história, mas não escolhemos as condições. A tentativa de explicar uma constância da natureza humana por meio de centenas de milhares de anos de pré-história e história por um determinismo biológico voltou, disfarçada de ciência. Uma condição humana perversa e/ou imutável tem sido o argumento para denunciar o projeto socialista como uma utopia não só fora da história, mas da natureza. Mas a disjuntiva trágica, colaboração e conflito, que encontramos em toda a história, permitem imaginar um futuro em aberto.

Iguais e ao mesmo tempo diversos

O marxismo não aceitou a idéia de uma condição humana inalterável, criticando critérios anti-históricos que naturalizavam a exploração dos homens uns pelos outros. A exploração humana não é natural. Como todo fenômeno social, é histórica e, portanto, transitória. As idéias socialistas estão hoje na contracorrente, mas os pioneiros do liberalismo não eram tão reacionários quanto seus herdeiros atuais. Adam Smith, por exemplo, não sentiu embaraço em sentenciar:

Na realidade, a diferença de talentos naturais em pessoas diferentes é muito menor do que pensamos; a grande diferença de habilidade que distingue entre si pessoas de diferentes profissões, quando chegam à maturidade, em muitos casos não é tanto a causa, mas antes o efeito da divisão do trabalho. A diferença entre as personalidades mais diferentes, entre um filósofo e um carregador comum da rua, por exemplo, parece não provir tanto da natureza, mas antes do hábito, do costume, da educação ou formação. Ao virem ao mundo, e durante os seis ou oito primeiros anos de existência, talvez fossem muito semelhantes entre si, e nem seus pais nem seus companheiros de folguedo eram capazes de perceber nenhuma diferença notável. (SMITH, 1988, cap. 2, p. 25)

O marxismo afirmava que os homens eram, ao mesmo tempo, iguais e desiguais. Reconhecia que a humanidade era diversa. Os seres humanos possuem capacidades e talentos diferentes. Uns são mais ágeis e outros mais articulados, uns são mais musicais e outros mais enérgicos, uns são mais impulsivos e outros mais reflexivos. Porém, as necessidades materiais e culturais mais intensas são comuns a toda a humanidade. A necessidade de abrigo e alimento, de segurança e lazer, de informação e reconhecimento, é universal.

Satisfazê-las, plenamente, foi impossível até que o capitalismo liberou as forças produtivas da revolução industrial. A igualdade das necessidades nos definiu e pressiona. A esperança em formas de sociabilidade mais colaborativas repousa nessa aposta. Sabemos que é possível.

Referências bibliográficas

HELLER, Agnes. O cotidiano e a História. São Paulo: Paz e Terra, 2004.

RIDLEY, Matt. The red Queen: sex and the evolution of human nature. Nova York: Penguin Books, 1995.

SMITH, Adam. A riqueza das nações. v. I. São Paulo: Nova Cultural, 1988. (Os economistas).

 

Fonte: http://blogconvergencia.org/blogconvergencia/?p=1030