Por Que o Capitalismo Não é um Sistema Auto-Suficiente? O Problema da Força de Trabalho e a Privatização da Educação, por Tomas Rotta

01/05/2012 17:06

O Problema da Força de Trabalho e a Privatização da Educação

 

por Tomas Rotta

 

O paradigma marxista sempre entendeu o capitalismo em sua totalidade. Na tradição da filosofia alemã do século XIX e dos grandes sistemas filosóficos, Marx elaborou uma teoria que explica o modo de produção capitalista como um todo orgânico em constante evolução e desequilíbrio. Mas Marx também notou que apesar de auto-expansivo, o capitalismo não poderia alcançar a auto-suficiência. Isto porque o sistema capitalista não poderia completamente internalizar uma de suas cruciais pressuposições, qual seja: a força de trabalho.

Uma das características principais do modo de produção capitalista é a produção e apropriação privada do excedente econômico. O excedente, ou mais-valor, é tudo aquilo que o sistema produz além do necessário para reproduzir seus trabalhadores. O capitalismo é capaz criar valor e mais-valor através do trabalho humano e em geral o faz com a produção de mercadorias. Uma mercadoria é qualquer bem ou serviço, sejam tangíveis ou intangíveis, que são produzidos visando à troca e ao lucro. Todas as mercadorias assim são, ao mesmo tempo, unidades de riqueza abstrata (valor) e riqueza concreta (valor de uso).  O excedente no capitalismo (lucros totais) é o total de valor agregado (lucros e salários) produzido em uma economia menos a compensação dos trabalhadores produtivos (salários diretos e indiretos).

O ponto crucial é que existe uma mercadoria que, distinta das outras, possui a capacidade de criar mais valor para além do seu próprio. Esta mercadoria especial é a força de trabalho. A centralidade da força de trabalho decorre de sua especial propriedade, a de possuir valor e a de concomitantemente ter a capacidade de criar mais valor. O valor que a força de trabalho cria para além do que ela mesma vale recebe o nome de mais-valor, ou excedente econômico.

Entretanto, e diferentemente das outras mercadorias, a força de trabalho não pode ser completamente produzida em condições capitalistas. Um dos problemas que o capital enfrenta é que esta mercadoria especial não é produzida totalmente pelo modo de produção capitalista. As famílias não têm filhos e filhas visando à troca ou ao lucro. Filhos não são colocados no mundo para que sejam vendido ao mercado. A produção de seres humanos, portanto, não se faz sob o manto dos preceitos do capital.

Ainda que seja a mercadoria crucial, a força de trabalho enquanto pressuposição para a criação de valor não pode ser totalmente internalizada pelo capital. O capitalismo depende, assim, da criação da força de trabalho através de um sistema não-capitalista. A dependência do capitalismo em relação a um sistema não-capitalista torna a existência do capital uma existência que não atinge a auto-suficiência. O capitalismo não é, dessa forma, um sistema fechado, nem mesmo um todo orgânico perfeito. A criação e expansão do valor requerem a existência paralela de uma outra forma de sociabilidade que não aquela que visa ao lucro.

O que o sistema consegue sim fazer é cada vez mais internalizar suas pressuposições. Ainda que não seja produzida em condições capitalistas, a força de trabalho torna-se uma efetiva mercadoria ao ingressar no sistema educacional. As tentativas de privatização do ensino público e da pesquisa acadêmica são formas do capital abarcar cada vez mais os mecanismos de produção da força de trabalho. É bem verdade que a privatização do ensino garante mais lucros ao setor privado. Não há dúvidas quanto a isto. Mas muito críticos de esquerda também se esquecem que privatizar o ensino significa também deixar que o capital internalize ainda mais aquilo que originalmente pertencia a uma forma de sociabilidade não-capitalista. A privatização do sistema educacional garante ao capital um nível extra no seu processo constante de internalizar suas pressuposições. Garante, pois, que mais uma parte da produção da força de trabalho se faça sob condições endógenas ao capital. Implica, portanto, diminuir a dependência do capitalismo em relação à formas de sociabilidade não-capitalistas.

Os atuais acontecimentos acerca da privatização de escolas e universidade no Brasil e afora evidenciam dois movimentos. O primeiro é o da voracidade do capital em fazer lucros onde seja possível. O segundo é o da voracidade do capital em englobar o paralelo sistema não-capitalista a fim de aumentar o seu ainda imperfeito grau de auto-suficiência. Representa, assim sendo, o movimento do capital em tornar-se de fato um todo orgânico, ainda que historicamente nunca o tenha sido.

O caso extremo em que a própria criação de seres humanos seja total e completamente absorvida pela lógica capitalista ainda permanece restrita aos romances de ficção científica. Filmes e livros representando uma sociedade futurista na qual o seres humanos são controlados geneticamente ou mesmo que possam ser recriados sem a presença de sexo ou mesmo famílias não fazem mais do que denunciar aquilo que Marx já havia teorizado no século XIX.

 

Fonte:http://marx21.com/2012/04/26/por-que-o-capitalismo-nao-e-um-sistema-auto-suficiente-o-problema-da-forca-de-trabalho-e-privatizacao-da-educacao/