Os dois pólos da acumulação, por Monthly Review

03/11/2011 10:50

Um sinal da gravidade do actual mal-estar económico é que hoje cada vez mais comentadores do establishment estão a voltar-se para as respostas de Marx. Assim, em 14 de Setembro de 2011, um artigo na Bloomberg Businessweek intitulado "Marx to Market", reconhecia:

O Homem Barbudo raramente teve tão boa aparência. A actual crise financeira global provocou a ascensão de um novo contingente de improváveis admiradores. Em 2009 o jornal oficial do Vaticano, L'Osservatore Romano, publicou um artigo a louvar o diagnóstico de Marx da desigualdade de rendimento... Em Shangai, o centro turbo-capitalista da China comunista-só-no-nome, multidões afluíram a um musical de 2010 baseado em O Capital, a mais famosa obra de Marx. No Japão, O Capital saiu agora uma versão manga... Por mais equivocado que Marx fosse acerca de muitas coisas... há partes do seus (vastos) escritos que são chocantemente perceptivas. ... Marx obteve recentemente uma leitura atenta do mais conhecido economista da Universidade de Nova York, Nouriel Roubini, e de George Magnus, o conselheiro económico sénior do UBS Investment Bank com sede em Londres... Num ensaio de 28 de Agosto para a Bloomberg View, Magnus escreveu que "a economia global de hoje sofre algumas sinistras semelhanças" com o que previu Marx...

Considere os pormenores. Como observa Magnus, a previsão de Marx de que as empresas precisariam cada vez menos produtores quando melhoravam a produtividade, criando um "exército industrial de reserva" dos desempregados cuja existência manteria pressão descendente sobre os salários para os empregados... É difícil argumentar com isso nestes dias... A condição dos trabalhadores de colarinho azul nos EUA ainda está a grande distância do salário de subsistência e da "acumulação de miséria" que Marx conjurou. Mas ainda não é um paraíso, mesmo na América. (http://businessweek.com)

A Bloomber Businessweek parece inconsciente de que Marx encarou o exército de reservas do trabalho como aplicável não só a países desenvolvidos como os Estados Unidos mas também a todo o trabalho do globo. É desta questão do exército global de reservas que trata a Revista do Mês neste número. Não só descobrimos que hoje a maioria da força de trabalho mundial está a viver próximo do nível de subsistência, devido à enorme pressão baixista exercida pelo maciço exército global de reserva de trabalho, limitando salários, como também permanece verdadeiro, como escreveu Marx no Capital, que "Acumulação de riqueza num pólo é, portanto, ao mesmo tempo acumulação de miséria, o tormento do trabalho, escravidão, ignorância, brutalização e degradação moral no pólo oposto, isto é, no lado da classe que produz o seu próprio produto como capital".

Durante o fim-de-semana de 9-11 de Setembro, Fred Magdoff esteve na Irlanda para participar no evento anual da Desmond Greaves School. Além de uma palestra sobre a crise económica nos Estados Unidos, Fred também participou num painel de discussão no domingo acerca do rumo do capitalismo. Ele encontrou-se com pessoas do movimento trabalhista, vários socialistas e membros do Partido Comunista da Irlanda. Um dos organizadores do evento, em agradecimento a Fred, escreveu o seguinte: "Consideramos [a Monthly Review ] como uma das mais importantes fontes de teoria e análise marxista acerca do capitalismo contemporâneo. Os conceitos de imperialismo, capitalismo monopolista e financiarização não estão generalizados aqui, de modo que a Monthly Review é vital para os nossos esforços de entender o que está a acontecer na economia e na sociedade. Sem estes conceitos e estas análises, é impossível entender a crise ou pensar acerca de para onde estamos indo e o que deveríamos estar a fazer". Na MR esperamos que esta nova ligação com socialistas irlandeses seja apenas um começo do que será um relacionamento contínuo.

O original encontra-se em http://monthlyreview.org/2011/11/01/november-2011-volume-63-number-6

Este editorial encontra-se em http://resistir.info/ .