Em busca de uma praça Tahrir universal contra o capitalismo, artigo de Eduardo Febbro

26/10/2011 10:06

Em busca de uma praça Tahrir universal contra o capitalismo

 

No fundo, esse é o sonho de todos: uma praça Tahrir Universal contra o capitalismo, pela democracia participativa, um retorno aos valores e à moral fundadores. Por isso resistem a tudo: à ironia, à indiferença, ao cinismo, à estupidez, à ignorância, à fome, ao frio outonal de Londres, a estas palavras. São poetas. E como todos os poetas não vivem envoltos em sonhos senão na nudez da realidade. O artigo é de Eduardo Febbro, direto de Londres.


A crueza brumosa e úmida do outono não os dissuadiu. Apenas terminou a marcha mundial dos indignados de 15 de outubro, os indignados ingleses seguiram ou exemplo de Nova York e Madri. As 150 barracas nas que se instalaram na parte externa da Catedral San Pablo de Londres suscitam olhares de ironia dos elegantes transeuntes que circulam por esta zona da capital inglesa. San Pablo é a ante-sala ao coração da “City”, ao antro das finanças mundiais contra as quais os membros do Occupy London Stock Echange se manifestam.

”Com o passar dos dias fomos nos organizando. Faz frio, muita gente nos olha com ironia mas também há muita solidariedade de outros passeantes”, relata Danielle Allen, uma professora de 25 anos, sem trabalho, que descobre pela primeira vez a ação social em plena rua. ”Capitalisme is crisis”, diz uma bandeirola desfraldada na explanada da catedral. O quadro é insólito: cavalheiros famélicos, trajados como lordes caminham entre as barracas do acampamento com ar de atravessar um jardim. Os jovens que montaram as barracas obtiveram uma vitória, por mais passageira que fosse. Com a benção do Reverendo Giles Frases transformaram este centro mundial das finanças em sua moradia sem que, até agora, a polícia os forçasse a partir. Instalaram banheiros móveis, uma “barraca cozinha”, uma “barraca enfermaria”, outra que funciona como um jardim de infância e uma onde se realizam oficinas de todo tipo.

Odiados e odiadores se cruzam às vezes com interesse, outras com uma indiferença de seres invisíveis. À hora do almoço, muitos dos empregados da City se detêm para ler as mensagens das bandeirolas e alguns estabelecem diálogos com eles. ”Me parecem simpáticos, porque são combativos, mas não estou de acordo com eles. As finanças produzem riquezas para todos. As bandeirolas são divertidas, mas refletem um mundo imaginário”, diz um dos eminentes habitantes da City. Está vestido segundo a última moda: traje impecável, mas sem gravata. O sonho era ocupar o London Stock Echange, isto é, a bolsa.

Spyro Van Leemen, um dos representantes do movimento OLSX, Occupy London Stock Echange, assegura que ninguém os moverá dali: ”nós vamos ficar todo o tempo que faça falta para que o governo entenda e se decida a mudar a ordem das coisas”. O jovem tem, como os outros, uma convicção inquebrantável e um montão de causas que convergem em uma: a reparação das injustiças, começando pelas que provoca o impune sistema financeiro. As conversões entre os ocupantes traduzem suas preocupações, perfeitamente refletidas nas bandeirolas e grafittis: a democracia, a justiça, o excremencial sistema financeiro, a corrupção, as mãos manchadas dos políticos, o desemprego, o preço alucinante dos alugueis, o fim da ocupação dos territórios palestinos.

Não são nem marxistas, nem revolucionários, nem comunistas, nem anarquistas, nem de extrema esquerda. ”Somos do partido da solidariedade mundial”, diz Andrew, um rapaz de 25 anos que trabalha três dias por semana em um depósito de Londres e vem ao acampamento nos dias livres. Andrew é membro do outro movimento que organiza a ocupação da esplanada da catedral, Uncut, cuja meta é protestar contra a massa de recortes nos gastos públicos decretada pelo governo do Primeiro Ministro David Cameron. Spyro Van Leemen –27 anos- explica aos demais que o que estão vivendo são os “primeiros passos de uma grande mudança planetária que terminará por democratizar o sistema financeiro”.

Sean e John, outros dois jovens que vem dos subúrbios de Londres, contam que não se trata de desencadear uma revolução “e sim de forçar desde a sociedade para que se instaure uma regulamentação financeira constatável”. Sean comenta com ironia: ”os banqueiros e os traders se outorgam bônus e recompensas por milhões e milhões de dólares e deixam a nós a pior parte: políticas de austeridade, recessão, sacrifícios”. Em volta deles o vento agita as bandeirolas com as mensagens já universais: ”Salven a la gente, no a los bancos”. O sinos soam e os jovens dançam.

O Reverendo Giles Frases fez um pacto com os acampados para que se afastem das escadarias e à policia pediu que não rondassem os arredores da catedral anglicana. O cordão policial se formou um pouco mais longe, no Square Paternoster, por onde se ingressa à bolsa de Londres. O reverendo Frases simpatiza em silêncio com esta juventude que se instalou nas portas de seu reino de forma pacífica e fazendo sacrifícios. Mas com o passar dos dias as coisas se complicaram. As 70 barracas do início se tornaram agora mais de 150. A visita da Catedral é paga, mas a presença dos indignados afugenta os turistas e curiosos. O acampamento é uma atração maior que a própria catedral e as pessoas não entram. A Catedral emitiu um comunicado indicando que “talvez tenha chegado a hora de que as barracas se levantem”.

« Isso são as nossas democracias, pura aparência, falsa liberdade », diz com raiva Clem OU’Neil asssinalando o cordão policial que protege os tesouros financeiros da City. As noites são longas. O frio se gruda sem piedade. Dois rapazes de uma barraca vizinha tocam violão e cantam uma balada imperdível de John Martyn: “The early sun of London morning / Burned the darkness with unanswered Light”. As vozes são suaves, novas calorosas na manhã gelada. Os indignados londrinenses têm um inimigo mais poderoso que a polícia ou a bolsa: o frio. Por momentos o vento sopra com uma veemência já invernal. A jornada no acampamento transcorre com muitas atividades.

Oficinas de reflexão sobre a economia, a política ou o sistema financeiro, encontros com a imprensa e um montão de trabalhos práticos impostos pela vida em um acampamento urbano. Um dos maiores problemas que têm é a limpeza, depois vem a alimentação e melhorar o inexistente conforto. A questão da limpeza é essencial para evitar que as autoridades encontrem na sujeira um argumento para desalojar-los. O principio é inamovível: ”fazer do acampamento uma base permanente”, explica um dos porta-vozes dos indignados.

Estão bem organizados e se repartem nas tarefas segundo uma ordem já pactuada. Conseguir comida para tanta gente é uma façanha diária, mas os indignados não se vendem a qualquer um. Durante uma assembléia decidiram de quem iam aceitar ajuda e de quem não. Por unanimidade excluíram qualquer contribuição que venha do Mc Donalds. Ninguém parece estar em conflito. Os turistas aparecem, tiram fotos, outras pessoas vêm trazer cadeiras, cobertores, comida, alguns banqueiros, os autênticos, se detêm a falar com os rapazes. ”Me dá curiosidade, ver tanto sacrifício e saber, no fundo, que esses meninos não entendem como funciona o mundo e como são indispensáveis os bancos”, explica Peter, um analista financeiro da City que esparrama bom humor com o tom de sua voz. Claro –reconhece --há banqueiros desonestos e isso dos bônus em momentos como estes, não é uma boa idéia, é injusto, mas não por isso queimaremos um sistema que move o mundo e cria riquezas”, explica vai embora olhando seu relógio”.

Dan Gregory, um corretor de bolsa, é menos condescendente. ”Esta gente quer que volte o comunismo, estão loucos”, espeta bravo. É inexato. São democratas sem trabalho, excluídos, são os eleitos para alimentar o tributo da corrupção, a impunidade, a irresponsabilidade de um mundo que se destrói a si mesmo. O tempo parece ter-se detido. Isso não é Londres senão um lugar no Universo. Um lugar exposto e incompreendido. Tanta vontade, tanto empenho, tanta solidão. ”In a foreign city once again / You waved weekly in the night”, diz a canção de John Martín. ”Tenho fé assim mesmo”, reconhece Michael, um indignado de olhos que soam despertos. ”Fé de que pouco a pouco o mundo tome consciência e de que, todos juntos, sejamos capazes de pôr em movimento, em cada lugar deste planeta agonizante, uma força tão grande como a que os egípcios colocaram na Praça Tahrir”.

No fundo, esse é o sonho de todos: uma praça Tahrir Universal contra o capitalismo, pela democracia participativa, um retorno aos valores e à moral fundadores. Por isso resistem a tudo: à ironia, à indiferença, ao cinismo, à estupidez, à ignorância, à fome, ao frio outonal de Londres, a estas palavras. São poetas. E como todos os poetas não vivem envoltos em sonhos senão na nudez da realidade. Sob a pálida luz da manhã londrinense, nada têm de “indignados”. São, sim, seres que não se resignam a aceitar a voraz desproporção do mundo, que não caem em depressões metafísicas profundas porque não podem comprar o último modelo do iphone ou do ipad.

Tradução: Liborio Junior

 

fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18794