Debate:Os Integralistas e a Universidade de São Paulo, por PCO

02/01/2012 11:54

A Revista Veja e a expulsão dos 6 estudantes da USP, por PCO

Os integralistas e a Universidade de São Paulo

Jornalistas de cunho fascista defendem a expulsão de alunos da Universidade

20 de dezembro de 2011

 

O Integralismo, ou “nacionalismo integral” (paródia de nacional socialismo) é uma das versões mambembes do fascismo. Esteve ativo durante a década de 1930 no Brasil, quando apoiou Getúlio Vargas na perseguição ao Partido Comunista do Brasil (PCB). Abandonado por Vargas, tentou, com as poucas forças que tinha, dar um golpe e acabou se esfacelando (Intentona Integralista). O movimento integralista praticamente desapareceu. Existe ainda no papel e, neste momento, procura estabelecer novas alianças com os setores mais reacionários da sociedade. Com a ajuda da Revista Veja, as “galinhas verdes” (epíteto dos integralistas) procuram impor à Universidade de São Paulo uma nova direção para os estudantes. Essa direção nada tem que ver com o movimento estudantil. Antes, servirá para desmobilizar os estudantes e aprofundar o processo de privatização ora em curso na USP.

A seguir mostraremos por que a Revista Veja é integralista ou, sem meias palavras, fascista.

Na edição do dia 7 de novembro de 2011, o “jornalista” Marcelo Sperandio (um galinha verde) escreveu uma matéria para a Revista Veja cujo título era “A rebelião dos mimados”. O subtítulo da matéria dizia: “Com roupas de grife e donos de carros caros, estudantes depredam a USP porque querem fumar maconha sem ser incomodados” (Veja, nº 2242). O sítio do integralismo (http://www.integralismo.org.br/?cont=781&ox=133) mostra, precisamente, as mesmas ideias. Eduardo Ferraz (secretário da seita) assina uma matéria intitulada “Na USP, alunos são reféns de marxistas” (10/11/2011), na qual escreve: “era composto o punhado de vândalos [alunos que ocuparam a reitoria] por “estudantes” da Universidade de São Paulo (USP). Vestindo moletons de marcas famosas e calçados importados...” (grifos nossos).

Comentário ridículo: moletom costuma ser roupa barata e calçado importado também, sobretudo levando-se em conta que a maioria vem da China. Ademais, a tentativa de atribuir os movimentos de massa à pequena burguesia além de desonesto já é uma tática desgastada. Collor, por exemplo, utilizou-a na campanha presidencial de 1989 ao dizer que Lula tinha um aparelho de som tão caro que ele, Collor (dono de uma retransmissora da Globo) ainda não tivera possibilidade de comprar.

Mas essa é sempre a tática da direita fascista. Procura sempre atribuir aos adversários características inatas a ela própria. Um típico utilizador dessa tática é outro “galinha verde” da mesma Revista, Reinaldo Azevedo. Procuraremos aqui, mostrar, ponto por ponto, como ele se vale de mentiras e de argumentos falsos para escrever suas “reportagens”. No caso que analisaremos, o que ele pretende é dizer que a expulsão dos alunos que tomaram a Coordenadoria de Assistência Social (COSEAS) da USP foi legal. Adiantamos que não foi. O “jornalista” mente.

E como costuma sempre dizer mentiras, faz uso da tática de atribuir aos outros o vício de mentir. Publicou o “galinha verde” em seu Blog (19/11/2011) a matéria “A expulsão dos seis invasores que decidiram privatizar a USP e o ensaio de setores da imprensa paulistana para, mais uma vez, apoiar quem esbulha a lei”, na qual alega que a expulsão não se valeu de dispositivo legal implantado na época da Ditadura, mas de dispositivo elaborado em 1988. Eis o texto do plumitivo: “É bom desfazer, uma vez mais, uma mentira. Afirma-se que a decisão foi tomada com base no regimento da ditadura, que é de 1972. É mentira! O texto é de 1990 — está aqui, já livre dos aspectos de fato discricionários que tinha. Se vocês clicarem aqui, verão o texto original, com a eliminação do, como gostam de dizer, “entulho autoritário”. Logo, esse papo de “regimento da ditadura” é conversa para invasor dormir… É inútil me atacar. Os textos legais estão aí.” De fato, é mentira... o que ele diz.

O texto de 1972 (o da Ditadura) diz, no Artigo 249, IV: “IV - pena de eliminação definitiva nos casos em que for demonstrado, por meio de inquérito, ter o aluno praticado falta considerada grave.” Mas, o que são “faltas graves”? Essas são regulamentadas pelo Artigo 250, VIII: “VIII - promover manifestação ou propaganda de caráter político-partidário, racial ou religioso, bem como incitar, promover ou apoiar ausências coletivas aos trabalhos escolares”. Falta grave é, portanto, a manifestação político-partidária, sem dúvida.

Mas, já que é mentira dizer que o Reitor se baseou nesse texto da Ditadura, vamos ver o que diz o texto de 1988 (o da Democracia). “Título X – Disposições transitórias”, Artigo 4º: “Enquanto não for aprovado o novo regime disciplinar pela CLR, permanecem em vigor as normas disciplinares estabelecidas no Regimento Geral da USP editado pelo Decreto 52.906, de 27 de Março de 1972.” E nada mais há no referido texto acerca de normas de disciplina e de punições.

Eis como funciona a mente de um sofista. Basta seguir-lhe os passos e esperar para ver onde ele vai tropeçar e cair. Continuemos a acompanhá-lo.

Diz ele que, na “invasão” da “sede do (sic) COSEAS” (o nome é feminino), “Documentos sumiram, funcionários foram ameaçados, o patrimônio foi depredado. Muito bem. Depois de uma longa apuração do caso, a universidade decidiu, com base no Regimento Interno, expulsar seis alunos invasores.” Comecemos pelos documentos desaparecidos. O “jornalista” não quer dar ouvidos ao outro lado da questão. Acusa e não permite defesa. Vejamos nós, pois, o que disse o outro lado:

“Durante a ocupação, assistentes sociais, que trabalham para a USP, retiraram documentos que ali estavam (há inclusive declarações assinadas por essas assistentes sociais). Além disso, documentos com informações confidenciais, pessoais e acadêmicas, de moradores do Crusp foram entregues à universidade em um ato realizado pelos estudantes no dia 28 de abril de 2010, que contou com a presença do coordenador da Coordenadoria de Assistência Social (Coseas), professor Waldyr Antônio Jorge, quem recebeu os documentos.” (http://uspemgreve.blogspot.com/)

No mesmo endereço eletrônico, há uma foto mostrando o momento da entrega dos documentos. Ou seja, o “jornalista” conta apenas meia-verdade. Esconde o resto da história que faz da história dele uma fantasia.

Quanto a dizer que funcionários foram ameaçados é querer enganar os incautos (outra tática direitista). Não há greve, nem piquete, sem que haja algum tipo de bate-boca, de troca de acusações e de algum tipo de violência. Cabe avaliar quais foram as “ameaças”. Ouçamos os dois lados: os funcionários da COSEAS e os que a ocuparam.

No “Comunicado do Serviço Social da Coseas sobre a ocupação do nosso espaço de trabalho”, os funcionários relataram o seguinte: “Na manhã dessa quinta-feira, fomos impedidos de entrar em nossas salas para trabalhar e mesmo de retirar objetos e documentos pessoais, sob xingamentos e ameaças.” Os ocupantes respondem que: “Alguns estudantes passaram a morar nos blocos ocupados, após a devolução dos bens públicos e pessoais que estavam dentro do prédio.”

Não quero me deter em outros pormenores. Mas, se compararmos a declaração dos funcionários (a qual se encontra no Blog do próprio Reinaldo Azevedo) com a dos ocupantes ((http://uspemgreve.blogspot.com/), o leitor poderá tirar suas próprias conclusões. Será preciso, sempre, ouvir as duas partes. É um princípio fundamental do direito e da liberdade, princípio esse desdenhado pelos integralistas.

Despois de uma longa digressão, na qual expõe o manifesto dos funcionários (e se cala, intencionalmente, sobre o que o outro lado tem a dizer sobre o caso), Reinaldo retoma o raciocínio com esta sentença: “Como se nota, não se trata apenas de depredação e sumiço de documentos. Houve também intimidação. Ora, se os expulsos acham que as provas existentes contra eles são frágeis, há o recurso da Justiça.” Em primeiro lugar, não houve depredação nem sumiço de documentos. Tudo que a imprensa mostrou, após a desocupação, foi um computador deitado no chão. Foi o que ela mostrou, mas não o que ela disse. Mostrou uma lagartixa e disse que era um tiranossauro. Do sumiço dos documentos já tratamos. Falta apenas o problema da intimidação. Como a intimidação ocorreu na manhã seguinte, após a ocupação, tratou-se de um piquete. Impedir que funcionários entrem para trabalhar é parte legítima dos movimentos populares de luta. Não há dúvidas de que a “intimidação” deu-se por causa disso. É outra tática da direita. Como não pode criticar, por meio da lei, a greve nem a manifestação, procura jogar a opinião pública contra os grevistas (ou manifestantes) falando da truculência do movimento. Mas e a truculência daqueles que provocaram o movimento? Daqueles que negam assistência social aos que dela necessitam? Daqueles que fornecem uma refeição de péssima qualidade aos alunos? Daqueles que colocam os alunos para morarem em prédios que são verdadeiros cortiços? E, sobretudo, daqueles que submetem os alunos a uma verdadeira humilhação quando têm que recorrer às esmolas fornecidas pela Universidade?

A imprensa sempre fala da truculência do povo, do trabalhador, do grevista, mas sempre esconde a brutalidade por que passaram antes. É bastante original esse mundo em que o oprimido é tratado como opressor e o opressor como vítima. É como disse o Governador Alckimin: “Agora, não tem (sic) nenhum estudante ferido e nós tivemos policial ferido e várias viaturas danificadas. A lei é para todos, ninguém está acima da lei." Ou seja, a polícia entra na Universidade, armada (até mesmo de bombas de gás lacrimogênio) e, quando distribui pancada a torto e a direito, quer que a vítima apanhe e fique quieta. Era só o que faltava!

Em seguida, o galinha verde apresenta-nos esta pérola: “É o fim da picada! Vocês entenderam direito: eles queriam que fossem eles próprios a decidir quem tem e quem não tem direito de morar no Crusp. A universidade passaria a ser, assim, um assunto privado — a verdadeira privatização da USP!!!” Ora, que maravilha! O Prefeito Gilberto Kassab determina ele próprio ´quanto vai receber de salário por mês. E depois reclama que os coveiros fazem greve. Eles fazem greve porque, diferentemente do Kassab, não podem determinar o próprio salário! É por isso que a direita é sempre contra as greves, pois é o único meio que o trabalhador tem para pedir aumento. E, se um dia, disserem que greve é ilegal, a direita dirá que o trabalhador terá de se utilizar de meios legais para conseguir aumento. Meios esses que não existem.

Quando o Governador diz que ninguém está acima da lei, encontra ressonância em toda a direita que lhe repete a frase, a qual se transforma numa ladainha insuportável. As vozes do Governador, do Prefeito, do Reitor e das galinhas verdes são as mesmas. Cacarejam na mesma tonalidade. E o Reitor também atira a sua pérola: “Se os referidos alunos têm certeza de que nada fizeram a não ser manifestações políticas, poderão recorrer ao Judiciário.” De jeito nenhum. Não há como se defenderem. Se depredaram, se ameaçaram, se sequestraram bem público e particular, serão penalizados. Se fizeram manifestações políticas, também serão. Pois assim reza o Estatuto de 1972.

Todavia, é importante que se diga que os alunos não foram expulsos por nenhuma espécie de depredação. Foram expulsos, apenas e tão somente, por se terem manifestado politicamente contra a “privataria tucana”, da qual o Reitor é cúmplice descarado. E não apenas o Reitor, mas também a revista Veja e o plumitivo que assina algumas de suas páginas, aqui referido.

Por fim, o referido plumitivo “ataca” a imprensa (com o fizera já no título da “matéria”): “Certos setores do jornalismo precisam parar com essa prática detestável que consiste em tratar fato como opinião: “Os alunos expulsos dizem que o regimento é da ditadura; a Reitoria nega”. Isso não é matéria de opinião, mas de fato. O que havia de tipicamente ditadorial (sic) já foi retirado. Os documentos estão aí. De resto, na ditadura era proibido roubar. Hoje continua proibido, mesmo com o PT no poder, certo?”

Antes de tratarmos de fatos e de opinião, tratemos do que era proibido na ditadura. Roubar? Parodiando Churchill, durante a ditadura, nunca tão poucos roubaram tanto em tão pouco tempo. A pilhagem era um escândalo. Na época dizia-se que o animal que mais adequadamente representava o militar era a lagosta, porque tem casca grossa, merda na cabeça e vive nas costas do Brasil. A segunda dessas qualidades caracteriza também os integralistas que, como os militares, também são verdes. E, depois de tudo que lemos aqui, podemos dizer o mesmo do “jornalista” Reinaldo Azevedo.

Para completar a sentença, esse “jornalista”, que é um puxa-saco do PSDB, aproveita o texto para insinuar que o PT é um partido de ladrões. Mas, e quanto à “privataria” dos tucanos? Aliás, esse mesmo puxa-saco se refere ao livro de Amaury Ribeiro Jr. como um “livro de ficção”. Curiosamente, a imprensa que se utiliza de “práticas detestáveis” quando contraria o galinha verde é bastante responsável para não dar crédito às mentiras de Amaury Ribeiro Jr.

A prática detestável “consiste em tratar fato como opinião”. Assim falou Reinaldo Azevedo. Para ele, o fato é que o regimento que permite a expulsão dos alunos não é o da ditadura. Mas, ele tem razão numa coisa: não é matéria de opinião, é matéria de fato. Acontece que, em bico de galinha verde, o que é fato vira opinião, e o que era opinião virou fato.

 

Fonte: http://www.advivo.com.br/blog/antonio-ateu/debateos-integralistas-e-a-universidade-de-sao-paulo#more